Estudos a partir das amostras de sangue de doadores voluntários de medula óssea, no Pará, apontam que os paraenses possuem semelhanças genéticas com as populações da França, Taiwan Minnan e do estado do Paraná, no Brasil. O artigo desenvolvido pela equipe de pesquisadores do Laboratório da Gerência de Imunogenética da Fundação Hemopa sobre o assunto foi premiado no Congresso Internacional de Transplante de Medula Óssea realizado na Coréia, no dia 11 de setembro.
O trabalho intitulado “Frequências de alelos HLA-A, -B e -DRB1 mais comuns em doadores de medula óssea no Estado do Pará (Brasil) semelhantes à França e Taiwan como regiões mais distantes”, foi apresentado no ICBMT 2020 por videoconferência pela estudante de biomedicina Luana Cabral, bolsista de iniciação científica da Fundação Hemopa/Fapespa, orientada pela professora Jeanne Mendonça-Mattos, gerente do Laboratório de Imunogenética.

“Eu fiquei extremamente realizada e feliz pelo reconhecimento. Todo o apoio da orientadora e da equipe do laboratório do Hemopa foi essencial, pois me deram toda a estrutura para desenvolver as análises. Esses primeiros passos me deixaram apaixonada pela área de imunologia, genética e transplante”, destacou a bolsista Luana Cabral.
Metodologia
Foram identificados 21 alelos de HLA-A, 33 de HLA-B e 13 alelos de HLA-DRB1 em 5.000 doadores voluntários de medula óssea, recrutados na Fundação Hemopa, de julho de 2010 a novembro de 2019.
A idade média desses doadores é de 30 anos. A grande maioria, composta por 39% dos indivíduos, tinha entre 20 e 29 anos e a minoria entre 50 e 59 anos (2,9%). Cinquenta e três por cento dos indivíduos eram mulheres, entre 15 e 59 anos, na época da coleta.

A comparação desses resultados com os de outras populações sugere uma semelhança com os observados em estudos realizados com populações da França, Taiwan Minnan e do Estado do Paraná.
Ainda como parte do estudo, pesquisas em publicações sobre a origem e formação da população paraense conduziram a documentos demonstrando que os franceses viveram no Pará, início do século XVII, com destaque para um francês da frota de Francisco Caldeira Castelo Branco, porque conhecia a língua dos Tupinambás, etnia indígena. Ainda a possibilidade dos povos austronésios, oriundos do sudeste asiático, terem migrado para Taiwan, bem como para o sul da China, há cerca de seis mil anos; considerando a emigração chinesa durante a Dinastia Qin (221-206 aC), para o Japão e as Filipinas, sugere-se uma relação com os alelos encontrados em japoneses residentes no norte do Brasil.
Além disso, é interessante dizer que o censo demográfico de 1950 mostra que mais de 7.000 (sete mil) estrangeiros de mais de 40 nacionalidades, sendo 413 japoneses e 2 chineses viviam no Pará.
“Ainda precisamos de muito trabalho para confirmar esses dados. Mas acredito que o trabalho serve para chamar a atenção dos doadores paraenses, pois temos muita miscigenação étnica aqui então nós precisamos de uma variedade maior de doadores cadastrados no Redome”, destacou Luana.
A probabilidade de encontrar um doador compatível de medula óssea é de 1 em 100 mil habitantes. No Pará, a Fundação Hemopa possui um pouco mais de 130 mil voluntários cadastrados no Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea (Redome), que fica Instituto Nacional do Câncer (Inca). De janeiro a junho deste ano, foram cadastrados 2.055 novos doadores no estado do Pará, o número caiu 36% com relação ao mesmo período do ano passado, que registrou 2.749 cadastros. Isso em função da pandemia do novo Coronavírus (Covid-19).
“O trabalho desenvolvido buscou entender a composição genética dos locos HLA dos candidatos voluntários à doação de medula óssea cadastrados no Hemopa com o intuito de auxiliar no processo de busca por doador compatível e na realização de transplantes, por vezes, única opção de tratamento de alguns pacientes. Ou seja, destaca a importância da doação de medula óssea, pois os pacientes são os que mais necessitam dessa compatibilidade”, destacou a professora orientadora, Patrícia Jeanne.